Dicas - Profº Dirceu Moreira

Cia de Pais & Filhos Ilimitada

Os papéis da família e a co-responsabilidade disciplinar - Prof.Dirceu Moreira e Eniete Aparecida Mondoni Moreira

“Quando duas pessoas estão em busca de uma união, é fundamental que ambos estejam harmônicos e, a fase preparatória, pré-casamento é fundamental. Homem e mulher se complementam, saber quando se deve ceder, é um ato de amor”.

Esta e outras tantas perguntas nos foram feitas em nossos encontros com pais e filhos. Por que vocês dão tanta ênfase à valorização do papel da mulher na criação dos filhos? E o papel do pai onde fica?

Para comentarmos esta pergunta, começamos por citar uma frase que acreditamos possuir um potencial intrínseco que precisa ser resgatada em uma sociedade que ainda trás os ranços de um machismo ultrapassado:

"A mulher precisa ter caráter e fibra para ser uma verdadeira sacerdotisa do lar, já que sua missão é das mais sublimes e das mais difíceis que existem na face da terra, pois o destino dos povos está em suas mãos". Helena Jefferson de Souza.

Parece que em períodos de decadência social, as palavras vão perdendo seus reais valores e, algumas delas de forma pejorativa, mas somente por puro apedeutismo e insciência nossa, tal como é o caso da palavra sacerdotisa, atribuindo lhe o significado deturpado e pejorativo de “dona de casa” uma espécie de escrava, uma mulher submissa aos caprichos masculinos, uma mulher de tanque (?), pia e fogão ao estilo: cama, mesa e banho. Muito pelo contrário, a palavra sacerdotisa tem origem no latim, onde Sacer quer dizer sagrado, portanto o aspecto divino. Ter caráter e fibra implica em ter garra e consciência de quem é esta verdadeira Sacerdotisa que já trouxe o divino no seu ventre por uma ou mais vezes e os criou, alimentou, ensinou, amou e os conduziu a seguirem seus caminhos. Esta mulher cumpriu uma das mais nobres missões que se possa imaginar e, por isso quando a Senhora Helena Jefferson de Souza diz: o destino dos povos está em suas mãos, está nos chamando a atenção para a responsabilidade que é depositada nas mãos destas benditas Sacerdotisas do Lar, na medida em que a palavra LAR se deriva de lareira, portanto falamos aqui dos mistérios do fogo. Na mitologia grego-romana aparece Héstia ou Vesta - deusa dos lares, que cultuava o fogo em uma lareira.

Dessa forma podemos perceber que o significado da palavra Lar também precisar ser resgatado, porque hoje virou residência ou simplesmente um lugar onde as pessoas moram e, às vezes, até eventualmente se encontram. Parece ter havido um, “desvio de rota”, fazendo nos refletir se este desvio de rota, na tentativa de encurtar caminhos, não nos conduziu ainda mais a um distanciamento da verdadeira essência do lar, do aconchego, do útero, enfim de um espaço onde coexiste uma família? Ser uma sacerdotisa do lar, portanto é ser esta mulher na sua essência divina e respeitada como tal e, isto não significa que ela não possa ter suas atividades profissionais, desde que consiga administrá-la e conte com a compreensão do seu esposo e também dos filhos, na medida em que estes vão crescendo em estado de consciência: da dependência à autonomia, graças ao papel dos pais dentro deste LAR. Desta forma podemos perceber que nossos papéis como pais são extremamente significativos, porque neste lar a presença do pai como provedor do sustento, não é apenas no aspecto material, mas substancialmente nas relações de afeto, de disciplina, amor e, hodiernamente também na partilha dos afazeres domésticos. A gravidez física é feminina, mas a gravidez psicológica é de toda família, para acolher com amor e compreensão o novo membro deste LAR. O pai e a mãe educam seus filhos através do amor/sabedoria e psicogeneticamente falando transferem a eles um modelo de vida através dos exemplos, portanto, os dois são co-responsáveis na formação do caráter de seus filhos, independente de que cada filho traga sua própria gênese. Quem sabe a palavra caráter pode ser traduzida também por “ter cara”, o que corresponderia a grosso modo a ter coragem de se mostrar. Quem se mostra, tanto pode acertar quanto errar. Estas são as dinâmicas nas vidas dos relacionamentos entre pais e filhos e, é através desta dinâmica que nos é permitido aperfeiçoar o caráter, tanto é que se diz do bom e do mau caráter. Quando os pais estão sintonizados na educação dos filhos, suas ações são convergentes em prol do crescimento do casal e de sua prole. Se o pai decidiu por esta ou aquela ação e, por sua vez a mãe, quando procurada pelos filhos que buscam outra saída, que, aliás, tão sabiamente se utilizam destas estratégias e, esta mãe acaba cedendo à solicitação dos filhos; houve ai nitidamente uma fratura dupla e exposta. Fragilidade do pai x poder da mãe, ou vice-versa. Acabamos por reforçar positivamente um comportamento negativo ou inadequado. A educação dos filhos é um papel de co-responsabilidade e não do tipo polar. Quando os filhos acertam, então dizemos; este é meu filho, se erram dizemos: olha só que seu filho fez. Um deve funcionar como lanterna para o outro a fim de nascer na relação a cumplicidade. A culpa assumida pelo erro e continuar a sentir-se culpado é lixo, mas a culpa consciente é mudança.

Na função de pai, temos que estar atento para percebermos quando erramos esse for o caso nos desculparmos, assumindo uma posição de humildade e o mesmo devemos ensinar a nossos filhos. Claro que isto na adolescência assume outras proporções e os limites necessitam e exigem outro tipo de dialogo. Muitas vezes nossos filhos, são espelhos que refletem nossos erros e, erros são oportunidades para mudança. Seriamos excelentes “autoterapeutas” se compreendêssemos estes acontecimentos.

Quando desempenhamos este papel coresponsável de pai e mãe na educação dos filhos, leva-nos a refletir que quando os homens exercem os 10% de serem “mães” e vice-versa, eles devem transformar este potencial de 10% em 100%, do contrário nada vai mudar nesta divisão de responsabilidade.

Com o tempo é conveniente que os filhos passem a compartilhar suas idéias para determinadas decisões quanto às normas da família, para que não se torne algo ditatorial por parte dos pais e, assim possibilita-lhes aprenderem como lidar com os limites e responsabilidades, desde pequenos. É importante lembrar que o meio social está repleto de leis, normas e procedimentos, não para engessar o ser humano, mas porque convivemos com pessoas de diferentes estados de consciências. A bem da verdade no início eram apenas 10 leis e agora são 10 também, mas elevada a 10ª potência. Sinceramente falando, acreditamos que os homens, jamais deveriam perder de vista que as mulheres que trabalham fora têm dupla jornada de trabalho, pois quando retornam ao seus lares, ainda têm que cuidar da casa, do marido e dos filhos. Imaginem vocês agora, se esta mãe é uma professora que trabalha em duas escolas, alias caso muitíssimo comum. A fratura não é dupla, é tripla. Percebam nas entrelinhas que esse machismo a que nos referimos, estão com os dias contados, porque encontramos hoje uma outra geração de homens. Nada de “metrossexuais”, “léguassexual”, “kilosexual” e etc., mas simplesmente homens que estão aprendendo a serem “pães”, isto é: ser pai e mãe conforme se faz necessário. Isto não significa que o homem deva ocupar o lugar da mulher e vice-versa, apenas um complementa o outro. Talvez 90% no papel de ser pai ou mãe e 10% de fazer o papel da mãe ou pai, ajudaria muito nos relacionamentos do casal. Haverá momentos que estes 10% não serão suficientes para ambos os lados, predominando então o amor, o respeito mútuo e o bom senso. Com base na psicologia Junguiana, nós homens, devemos buscar a harmonia do nosso aspecto masculino como expressão do nosso exterior, com aspecto feminino que pulsa em nosso interior e, desta forma poderemos compreender melhor o feminino externo que é nossa contraparte, esposa, mulher e, vice-versa. O primeiro casamento deveria se dar internamento em cada um de nós para que depois, possa acontecer externamente. Quem sabe geraríamos menos expectativas em relação ao outro.

Então, quando nos referimos a este lar dando ênfase aos aspectos espirituais, requer acolhermos com amor e carinho aquela que desempenha o papel de sacerdotisa, daquela que cuida e precisa de cuidada. Qual foi mesmo a ultima vez que vocês, os pais e os filhos, lavaram uma louça, varreram um quintal, ajudaram nos afazeres da casa? Estas são atividades espirituais ou pelo menos servem para meditar o espírito de cooperação dentro da família. A desculpa costumeiramente empregada da falta de tempo, não serve, porque estamos nos referindo a muito mais. Sim, o ato de estar junto e participando afetivamente daquilo que aparentemente é um simples fato de fazer coisas. Há uma fome, que os governos nunca combateram e nem administraram, ela se chama: FOME DE ESTÍMULOS, de reconhecimento, de ser importante. Nós como pais e no seio de nossos LARES aquecidos pelo fogo do amor cujas chamas aquecem nossos corações, podemos fazer muito no combate a esta fome e, basta apenas um minuto por dia para nos olharmos como seres humanos e dizermos uns aos outros NAMASTÊ: o Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você.

Vimos, portanto que o papel tanto da mãe quanto do pai, só fazem sentido se caminharem para uma ação complementar e de uma participação efetiva na criação dos filhos. O que mede esta qualidade do relacionamento familiar não é o número de horas que permanecemos com nossos filhos, mas sim o qualificativo em detrimento do quantitativo. O amor no seu plano divino de sabedoria supera em progressão geométrica aquele chamado amor da paixão, do medo e da insegurança e dos nossos apegos, inclusive e principalmente em relação aos filhos.

Portanto é preciso uma atenção especial para se compreender nas entrelinhas a frase da Senhora Helena Jefferson de Souza: “A mulher precisa ter caráter e fibra para ser uma verdadeira sacerdotisa do lar, já que sua missão é das mais sublimes e das mais difíceis que existem na face da terra, pois o destino dos povos está em suas mãos”.

Só para concluirmos: imaginem as mães abandonando o papel da criação dos filhos, quantos homens conseguiriam superar ou mesmo substituí-las? O contrário não seria verdadeiro, pois estamos cansados de ver casos, inclusive de mães solteiras, cuidando e criando seus filhos e em grande parte sozinha, não que isso seja o suficiente e adequado. Este modelo não está coerente, em detrimento do modismo existente, caso contrário não faria sentido diante daquilo que representa a própria criação Divina. A vida se desenvolve através dos relacionamentos, pois, é através dos atritos que a roda do carro o faz deslanchar sobre o asfalto. Sem esse atrito ele perderia o contato com o solo, da mesma forma se desfazem os relacionamentos, porque falta o contato. Puxar o freio de mão já é outra coisa e, corresponde ao conviver entre tapas e beijos. Serão brigas eternas e neste caso a separação será boa para os três lados: pai, mãe e filho. Não basta a guarda compartilhada, mas o amor precisa ser vivenciado pelos três lados desta moeda que se chama vida. Estamos vendo que o conceito de família se ampliou. Hoje temos a versão tradicional pai, mãe e filhos vivendo num mesmo ambiente. Filhos que tem duas famílias (a do pai e da mãe) por ocasião da separação. Outros ainda vivem com os avós, tios... e, há ainda outras discrepâncias sociais, mas o LAR não deixará jamais de ser sagrado, coisa que as inversões do mundo atual querem destruir.

Ser pai, ser mãe não é padecer no paraíso, mas sim compreender que mesmo no paraíso temos uma responsabilidade muito grande: mantê-lo!

Se nosso lar for um paraíso, ou um inferno a maior responsabilidade serão dos pais, e serão gradativamente incorporadas pelos filhos (felizmente não acontece com todos).

Antes de sermos terapeutas, psicólogos e outro qualquer título, somos pais e também falhamos. Ao invés de chorarmos o leite derramado, voltemos atrás, mas com os pés no presente e vamos corrigir. É preferível os pais que erram porque vivem tentando, do que aqueles não erram porque nunca tentaram. Se preciso for, temos que ter humildade e pedir desculpas pelos nossos erros, mas não erramos em tudo, então é preciso que cada um saiba ver o quanto de bom também fez para nossos filhos, bem como o que nossos pais fizeram por nós. Caso contrário iremos arrumar bodes expiatórios para o resto de nossas vidas. Uma eternidade de pais culpando filhos e filhos culpando os pais, num circulo vicioso de culpabilidade que não nos levará a nada. Enquanto resmungamos nossos erros e os erros dos outros, o presente fica empacado com coisas do passado, e neste caso nos perguntamos: que futuro estamos construindo?

Quando cumprirmos nosso papel, a escola terá cumprido o seu, potencializando a inteligências de nossos filhos. Muitas escolas e prefeituras estão abrindo espaço para amenizar o impacto destas questões familiares como reflexos em sala de aula e com isso somos convidados para realizar conferências com os pais, não apenas para falarmos de violência, mas sim para falarmos de amor, sabedoria, dignidade e respeito ao ser humano.

Como disse a educadora de Alagoinhas Ana Angélica Soares, precisamos possibilitar o desenvolvimento de uma ambiência coparticipativa com a família, a fim de que possamos criar um clima de harmonia, onde o saber se torne um ato de felicidade. Este talvez tenha que ser uma das metas mais ousadas da educação, diante da questão do que hoje se denomina de bullyng, como violência silenciosa, no espaço, escola, família e sociedade.

Finalizando esta nossa reflexão: Antes de ser pai, você paquerou, namorou (ficou talvez mais tempo), noivou, veio o pré-casamento e depois a união. Tudo isso se soma como experiência de vida. Cuidado com a fase que denominamos de TPM -Transtorno Pré-Matrimoniais, para que o casamento não termine antes de começar, como tem acontecido em muitos casos que recebemos no consultório. Amar é antes de tudo aceitar o outro como ele é, e juntos compartilhar e se ajudarem mutuamente. Esta será sem dúvida alguma uma grande lição que os filhos aprenderão sobre o casamento: transformação e superação dos problemas. Tanto o papel da mãe quanto do pai, são fundamentais na criação dos filhos, porque ambos se complementam e os filhos internalizam dos dois aquilo que é peculiar a cada papel. Cabe ao pai e mãe terem ou não consciência dos seus papéis, conhecer em detalhe a descrição dos cargos, envolve amor e sabedoria. O amor dá os limites e a sabedoria a compreensão.

Prof. Dirceu Moreira - psicologo, pedagogo, terapeuta, consultor em rh e educação, autor de 11 livros e Eniete Ap. Mondoni Moreira psicóloga, terapeuta, conferencistas co-autora do livro Cia. De Pais e filhos ilimitada.

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